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McQueen: a concretização do conceito de pós-moderno na moda

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As barreiras entre a moda e entra a arte, que até o século XX eram tidas como coisas completamente distintas e não tinham forte ligação foram quebradas ao longo desse século de muitas revoluções. Quando Dalí se uniu a Elsa Schiaparelli para realizar trabalhos que faziam-nos contestar os limites entre os universos da arte e da moda. Em meados do início do século XXI, não só as roupas ficam à beira da arte: os desfiles de moda são transformados em shows, revelando assim a nova face da arte e da moda. Muito disso se dá aos trabalhos de Alexander McQueen, que tinha os aspectos artísticos de seu trabalho evidenciados por diversos fatores, tais como a teatralidade de seus desfiles, o uso de recursos provocativos (como a violência e o choque estético) e também a inspiração em vários tipos de arte. Para o estilista as roupas cumprem um papel fundamental, que é o de expressar uma mensagem.

Alexander McQueen se destacou por suas roupas fora do comum e pela audácia de seus conceitos e desfiles, evocando constantemente a relação arte/moda em seu trabalho. A vertente artística do estilista também era expressa em seu comportamento. Apesar de suas roupas terem um sucesso comercial razoável e de declarar que “nunca quer propor coisas que ninguém pode vestir”, é possível observar uma postura egocêntrica no artista. Várias das peças mostradas nos desfiles de McQueen nunca serão produzidas ou vendidas, enquanto outras peças vendáveis não chegam a ser exibidas, ou são deixadas em segundo plano nos desfiles por não fazerem parte da “mensagem” que o estilista espera transmitir.

Os desfiles do estilista são primorosamente planejados, desde a escolha do tema, passando pelas roupas, pelo cenário, até chegar à música e iluminação. Mas é importante ressaltar, que os espetáculos dos desfiles de Alexander McQueen não são vazios. Cada coleção e cada desfile são desenvolvidos a partir de um tema, seja ele específico ou abstrato, que esteja em consonância com as inquietações do momento. No contexto das apresentações teatrais do estilista, os cenários são de extrema importância por permitirem a criação da “atmosfera” desejada e, deste modo, fortalecerem a mensagem a ser transmitida. O grand finale também é outro ponto bastante valorizado por realçar alguns componentes da apresentação e potencializar as experiências vivenciadas pela platéia.

McQueen utiliza temas não usuais, que revolucionam as regras dos desfiles de moda convencionais e questionam a realidade, apesar de serem apresentados de forma fantasiosa. A provocação é uma forma de alertar para esses questionamentos, que acontecem de diversas formas, mas em sua maioria tem o choque como principal ferramenta. Esse é o caso de sua “tática do choque estético”, que consiste em submeter a platéia a imagens que vão contra os padrões usuais de beleza e harmonia formal. Foi o caso do desfile Voss (primavera/verão 20001) em que no final, uma caixa se abriu revelando a nudez da autora erótica Michelle Olley, uma mulher bem corpulenta, fugindo completamente dos padrões vigentes de beleza.

A quebra da ordem é outro recurso muito utilizado por Alexander para inquietar a platéia de seus desfiles e induzi-la à reflexão, muitas vezes por meio do desconforto. Muito do impacto causado pelos espetáculos do estilista se deve a forma com que ele observa a realidade e sua capacidade de subvertê-la com uma única mudança, simples, mas com grande eficácia.
Outro fator que demonstra sua tendência ao choque e à provocação é a violência como tema recorrente de seus desfiles. O uso de referencias à morte, à doença e ao abandono era uma forma de articular as ansiedades dos indivíduos relativas às rápidas mudanças sociais, econômicas e tecnológicas ocorridas no final do século XX. McQueen responde, com sua arte, todos os questionamentos que vem do “desamparo ideológico”, como fez no seu desfile de formatura baseado no Jack, o Estripador.

A violência das touradas espanholas foi o tema da coleção primavera/verão 2002 e foi explorada através de um vestido feito de banderillas (lanças usadas para atingir os touros), que, além de dramatizar toda a agressividade da peça, também servia de apoio para uma cauda um tanto quanto excêntrica. A fragilidade e a beleza da modelo em contraposto a brutalidade das flechas, a tradição das touradas em contraposto a modernidade do desfile, a fluidez do desfile em contraposto a rigidez que as banderillas expressa. Porém, toda transgressão de McQueen é auxiliada por um incrível domínio de técnica e obtida da maneira mais tradicional quando se fala de moda: nos ateliês de Savile Row.

É inegável que McQueen buscava influências na arte durante o processo criativo de suas coleções. A presença da arte também transparece na busca de referências em outras expressões artísticas, como cinema, fotografia, artes plásticas e até mesmo literatura. Em 1993, a fotografia de Joel Peter Witkin foi referência da coleção Nihilism, como também o cinema de Pasolini, Kubrick, Buñuel e Hitchcock.

O cinema de Kubrick também esteve presente na coleção de outono/inverno de 99, baseada no filme “O Iluminado”. Primavera/verão de 2004 também fez alusão ao cinema, só que dessa vez ao filme “They shoot horses, don’t they?”, de Pollack. As artes plásticas foram usadas como referência no desfile primavera/verão de 1999, onde os sprays cinéticos da obra “Les Amants” da alemã Rebecca Horn.

Voss, a coleção primavera/verão de 2001, teve citações explícitas da fotografia “Santuarium” (1983), de Witikin, em que a modelo é conectada por meio de um tubo respiratório a um macaco empalhado.

Essa miscelânea de artes dentro da moda de McQueen se deu também fora dela. O estilista dirigiu o clipe da islandesa Björk, a mesma que vestiu muitos de seus desenhos. McQueen esteve em videoclipes também dentro das câmeras: muitas das roupas que Lady Gaga usa em “Bad Romance” é assinado pelo britânico. “Run The World”, de Beyoncé, traz um vestido da última coleção de Alexander McQueen. Um de seus vestidos tornou-se polêmica na saga Harry Potter: o vestido de casamento de Fleur Delacour, da estilista Jany Temime é muito semelhante a um modelo McQueen de 2008.

Outra realização importante foi aquela em que o designer editou um número da revista Dazed & Confused, no qual publicou pessoas com deficiências físicas severas vestindo roupas que haviam sido feitas sob medida por diversos estilistas.

McQueen não foi feito para as massas. É Fato. E dizer isso não refere se ao custo ou ao que as pessoas estão acostumadas a usar. Povo é calça jeans e camiseta. McQueen é pena e chifre. A premissa do estilista britânico não é apenas vestir, mas, acima de tudo, é expressar idéias, é criticar comportamentos, é irreverência. Vestir sua marca é carregar o peso de uma ideologia e todo o sincretismo do pós modernismo.

McQueen podia ser um estilista de grife, mas trabalhava com retalhos. Retalhos de todas as artes: cinema, pintura, música, na edificação de sua obra final. Ou seja: McQueen criou uma tendência dentro do mundo da moda na qual a produção é para ícones com inspiração em ícones. Deu um caráter de sinestesia a esse campo que era meramente moda por moda, moda para as pessoas.

Depois de McQueen, moda é arte, e não uma simples representação de uma época. E fez isso representando muito bem o mundo pós moderno, de efemeridade e narcisismo.

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Author: Arthur Ferreira

♪ eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém; aqui embaixo, as leis são diferentes...

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